Comida, rima e identidade: a gastronomia dentro do hip-hop
Como o hip-hop transformou comida em símbolo de identidade, poder e memória
Desde que o grupo Sugarhill Gang reclamou de macarrão mole, ervilhas amassadas e frango com gosto de madeira em “Rappers’ Delight”, a relação entre comida e hip-hop se manteve próxima e muito conectada.
É uma relação de amor. Em 1985, o grupo Fat Boys lançou, com a produção de Kurtis Blow, a faixa “All Can You Eat”, que em cada uma das suas linhas fala sobre o mesmo tema: comida, muita comida.
Se o prato favorito de Rakim é peixe, como ele disse em “Paid In Full”, podemos complementar essa rima com “Niggas in Paris” de Kanye e JAY-Z, na qual o primeiro fala sobre o pedido de sua acompanhante na música ter sido filé de peixe - algo não tão sofisticado.
E é assim que podemos começar a falar de comida e hip-hop, ela é uma espécie de bragadoccio, da mesma forma que eles falavam de jaquetas Louis Vuitton estilizadas por Dapper Dan, Mercedes-Benz e alguns Adidas novinhos.
Mas ela pode falar muito sobre cultura, região e representatividade. Pesquisando sobre Anthony Bourdain para esse post sobre o Sain, descobri uma frase sua sobre comida que me chamou muito a atenção: “Comida é tudo o que somos. É uma extensão da sua história pessoal, da sua região, do seu bairro, da sua tribo, da sua avó. A comida é inseparável dessas coisas desde o princípio.”
Quando li sobre isso, pensei: mas isso é o rap. O rap é regional, é das quebradas. E tudo combina, pratos autorais com estilos de rimas característicos; a criatividade das mise-en-place e a parte artística da nossa cultura.
Pensando nessa relação quase que fraterna, o Raplogia preparou uma seleção de momentos do rap sobre comida que fazem parte da história e mostram muito sobre essa relação.
A notória gastronomia de Biggie
Além das joias, carros e roupas, pratos caros sempre foram uma forma de ostentação entre os rappers norte-americanos desde a sua criação. Quando Biggie rima sobre um café da manhã de hotel em “Big Poppa”, ele não o cita apenas pelo sabor, mas pelo significado embutido.
“A T-bone steak, cheese eggs and Welch’s grape”
Seu fim de noite e começo de dia precisa do melhor filé - apesar dos outros componentes da refeição não serem de certa forma algo tão sofisticado.
Anos depois, em seu segundo disco e um dos singles mais famosos, ele cita escargot após falar de sua grana: “I can fill you with real millionaire shit / Escargot, my car go one-sixty, swiftly”.
Mas dentro da carreira de Biggie, a comida faz parte também da sua jornada saindo da pobreza. Desde “chicletes de cinco centavos”, “leite com chocolate na escola” e comer “sardinhas no jantar” até os filés caros de madrugada. Tudo está devidamente documentado nas músicas.
É uma forma de observarmos como a sua jornada para a riqueza passa também pela comida.
Uma informação muito interessante é que T’yanna Wallace, filha de Biggie, abrirá em 2026 um restaurante em homenagem ao seu pai e suas raízes caribenhas em Nova York. A Big Poppa’s Steakhouse já teve um dia de prévias na cidade e em breve atenderá o público.
O clã gosta muito de comer
Muito antes de participar do Pizza Wars no canal First We Feast para provar pizzas inspiradas no Wu-Tang Clan, Ghostface Killah já falava sobre comida. Muitos consideram o rapper um dos maiores obcecados por gastronomia dentro do gênero.
O estilo de rima de GFK segue um fluxo de consciência que faz suas letras não se conectarem diretamente. Ele muda temas entre versos, criando um caos organizado enquanto pinta letras cinematográficas.
Em “Apollo Kids”, parte integrante do disco Supreme Clientele (2000), ele rima:
Ayo, this rap is like Ziti, facing me real TV / Crash at high speeds, strawberry kiwi
Em entrevista, ele deixa claro que gostava muito de ziti na época - assim como A.J. Soprano - e que a massa era como raps de qualidade. No mesmo papo, Ghost ele comenta que cita “morango kiwi” pois gosta de experimentar coisas novas - não sei como ele encaixaria isso, mas strawberry kiwi é um sabor comum em bebidas, inclusive da Welch's.
Um trecho que gosto dessa entrevista é quando o rapper fala o seguinte: “Eu estava pensando em um jeito de escrever sem ninguém saber o que eu estava falando, só eu mesmo”.
Esse é o jeito Ghostface Killah de rimar. Você tem de parar, ler, reler, interpretar. É complicado, mas é sem dúvidas um dos melhores estilos de todos.
Em toda a sua carreira, ele também sempre usou nomes de pratos ou refeições para falar de outras coisas - principalmente drogas. Em “One”, do mesmo disco Supreme Clientele, ele fala de pacotes de ravioli para referenciar maconha. Em “The Heist”, som de Busta Rhymes em que ele participa com Roc Marciano e Raekwon, ele fala de Hennessy (conhaque favorito dos rappers) usando a expressão “chocolate milk” antes de fazer coisas de gangster.
Rappers costumam falar de Hennessy, muitos de uma forma figurada, como Tupac na música homônima do seu disco póstumo Loyal to the Game (2004): “Foda-se o gin & juice, só bota um pouco da parada escura no meu copo”.
Mas não podemos mudar de tema sem falar da obssessão de Ghostface Killah por peixes. Em músicas como “Black Jesus” do seu disco de estreia e de “Buck 50” também de Supreme Clientele, ele menciona comer halibute frito e garoupa.
Seu primeiro disco tem uma música chamada “Fish” que fala: “We eat fish, tossed salads and make rap ballads", que pode ter diversos significados duplos, como sexo oral, droga de alta qualidade e conhecendo a mente de GFK, coisas que nem imaginamos.
Porém, sem dúvida alguma, é em Supreme Clientele que Ghost traz comida como um dos pontos mais presentes. No primeiro som do disco, “Nutmeg”, ele fala sobre:
Frango frito crocante em Poughkeepsie;
Torta de limão;
Mingau;
Costelas de girafa temperadas (ninguém come isso, é só pra falar que ele é exótico);
Glacê com aroma de canela e nogueira;
Mas culinária - mesmo que exótica e imaginária - faz parte da carreira de Ghostface Killah como rapper. Muitos boatos falam que ele é vegetariano, assim como outros membros do Wu-Tang, mas Ghost diz que apenas faz um consumo consciente de carne.
O rapper participou junto de membros veganos do Wu-Tang em uma campanha para lançar o Impossible Burger, hamburger plant-based feito de uma parceria do fast food White Castle, com a Impossible Foods.
É simplesmente muita coisa. Ele vive suas letras, mesmo que elas sejam as mais aleatórias de todas.
O chef mascarado
Jamais um cara com um disco intitulado Mm..Food estaria de fora da lista. O título do projeto é um anagrama para o seu nome, MF DOOM, mas o conceito culinário permeia o disco, como comentou o rapper em 2004 para a Spin: “é um disco sobre piquenique e coisas que você acha em mesas de piquenique”.
A tracklist do disco é basicamente um banquete: carnes, tortas, biscoitos, knishes, cervejas, gumbo e muito mais. O conceito é muito interessante e toda música traz uma referência à comida.
Em “Rapp Snitches Knishes”, DOOM fala sobre os rappers que se autoincriminam em suas letras, causando problemas para suas carreiras e gravadoras. Mas knishes são uma espécie de salgado da culinária judaica muito popular em algumas áreas de Nova York.
“Eu cresci em Nova York, então, os knishes eram parte da nossa vida. Quando escrevi aquele som, eu acho que eu estava com um dos meus manos e nós paramos para comer knishes naquele dia,” disse ele para a XXL. Ele ainda citou que “knish” rimava apenas com “rap snitch” (caguetas) e uma coisa levou a outra.
O vilão fez salgados com MCs que se autoincriminam.
MM…Food está repleto de referências culinárias que, na música, ganham outro sentido. É possível definir a relação de MF DOOM com a comida como algo muito natural: ela simplesmente estava presente em momentos da vida dele, e acabou virando algo.
Por exemplo, quando ele e Madlib foram gravar Madvillainy (2004), as sessões foram regadas a comida tailandesa - culinária extremamente popular em Los Angeles, uma das cidades que o disco foi gravado.
Os knishes também estavam lá em um momento normal da vida de DOOM, e viraram música. Assim como as hoecakes, famosas panquecas de milho, que eram comuns entre os povos africanos escravizados no sul dos Estados Unidos e acabaram virando algo cultural na mesma região.
O rapper nomeia uma das músicas de “Hoe Cakes” e traz outro sentido para elas, fazendo um trocadilho com a palavra hoe, que em inglês também significa prostituta. Um detalhe que pode ter sido também importante para ele definir o nome da música, é que DOOM morou em Atlanta por muito tempo depois de sair do grupo KMD nos anos noventa, e essas panquecas são bastante comuns por lá.
Ou seja, a comida é parte da vida de um super vilão.
Fuck, that's delicious!
Atualmente, sem dúvida, a relação mais famosa entre o rap e a comida é a do rapper nova-iorquino Action Bronson, que fez o caminho inverso.
Bronson é descendente direto de imigrantes da Albânia e cresceu com culinária em sua casa. Residente do Queens, um caldeirão cultural, o rapper desde cedo ajudava sua avó na cozinha como um profissional nato.
O rapper estudou culinária na Art Institute of New York e trabalhou no restaurante de comida mediterrânea do seu pai, onde recebeu anos de prática como chef. Action ainda trabalhou no Citi Field, estádio de baseball do New York Mets.
“Eu não tinha nenhuma aspiração a não ser o melhor chef do mundo,” disse ele para a Crack Magazine.
Sua carreira como rapper era um hobby, quando um acidente na cozinha quebrou a sua perna e o fez mudar de foco. Desde então o chef profissional ficou para trás, e a música virou seu principal ganha pão.
Ele incorpora suas referências culinárias em suas letras há anos, no maior estilo Ghostface Killah - inclusive sua voz é muito semelhante à do membro do Wu-Tang, o que já gerou maus bocados.
Seu estilo de vida, combinando comida de qualidade e rap, lhe deram um programa chamado Fuck, That's Delicious, na VICE, onde ele viajava o mundo provando pratos e conhecendo novas gastronomia. A VICE acabou, e ele continua com o programa no seu próprio canal do YouTube.
Além disso, Action Bronson escreveu livros de receita, onde ele conta histórias das suas viagens e ensina como preparar suas receitas favoritas.
Escolher suas melhores letras sobre comida é um trabalho árduo, mas que já foi feito pela equipe do Genius nesse artigo que mostrou a preferência do rapper por drinks, frutos do mar e queijos, além de referenciar mais a culinária italiana, francesa e a americana.
I started clapping when the chef brought the duck to the table
Bronson tem um repertório culinário global, mas sempre valoriza os seus. É comum em seu canal do YouTube vermos o rapper em locais simples de Nova York, valorizando a gastronomia de sua quebrada.
Não deixe de passar na Bay Area
A Bay Area é conhecida por ter inúmeros artistas lendários que mencionam comida em suas letras há décadas, de Mac Dre até Larry June.
E-40, um dos maiores artistas da área, sempre foi um entusiasta. Suas letras trazem referências à comida como sanduíche de manteiga de amendoim e geleia, até queijos caros.
Na faixa “Gouda”, ele usa o nome do queijo holândes, para falar sobre ganhar dinheiro. Afinal, “cheese” (queijo, em inglês), é uma gíria para grana.
A relação era tão profunda, que o rapper criou a Goon With The Spoon, uma empresa que inicialmente tinha foco em burritos, mas que agora também tem sorvetes premium no seu mix de produtos. A marca virou uma espécie de programa de E-40, que mantém o Instagram da empresa com receitas e ativações muito aleatórias.
Goon With the Spoon também é o nome do seu livro de receitas em parceria com Snoop Dogg, lançado em 2023. O rapper ainda foi dono de uma franquia da Fatburger, junto do ex-jogador da NFL, Chester McGlockton.
E-40 sempre está na rua com os seus, comendo e se divertindo. Comida é comunidade para ele, muito além de apenas um ganha pão.
O sul tem algo a dizer
Nos anos noventa, o sul começou a aparecer no cenário com atos como UGK, Scarface e Outkast. Juntos de Big Boi e André 3000, o grupo Goodie Mob também começou a fazer barulho no cenário junto do coletivo Dungeon Family.
Em 1995, o disco Soul Food marcou a estreia oficial do grupo. Produzido inteiramente pela dupla Organized Noize, o projeto foi cozinhado no estúdio de Curtis Mayfield, em Atlanta.
O nome do disco é uma referência à típica soul food de Atlanta, estilo culinário afro-americano do sul dos Estados Unidos, que é uma grande expressão cultural e símbolo de resistência.
A soul food é um tipo de culinária que traz pratos fartos, robustos e bem temperados. É um estilo de comida que é extremamente caseiro e apesar desse grande significado, é feito com ingredientes simples e comuns nas regiões.
A faixa título do projeto tem rimas extremamente regionais sobre a soul food e uma grande crítica aos fast foods feita por Cee-Lo Green:
“O fast food deixa enjoado; os brancos acham que são espertos ao tornar essa porcaria acessível”.
Como Anthony Bourdain falou: “…da sua história pessoal, da sua região, do seu bairro, da sua tribo, da sua avó”. Talvez um dos maiores exemplos dentro do rap dessa frase seja sobre a soul food, que além do disco do grupo Goodie Mob, está presente em inúmeras outras referências.
Todos os rappers do grupo falam sobre a soul food de uma forma muito representativa. A capa do álbum traz todos os rappers sentados na mesa em uma oração, ou seja, aquele é um momento sagrado - comer soul food é um momento sagrado.
“Soul food é comida de entranhas, entende? É comida que gruda em você. Nós, como músicos e artistas sulistas, fomos criados com muito rhythm and blues e soul music. E levamos muitas dessas influências para a nossa música. Então, mesmo que às vezes estejamos rimando sobre carros, há muitas vezes em que falamos sobre coisas da vida real,” disse Bun B sobre o disco para a NPR.
O Goodie Mob usa a soul food como uma forma de mostrar suas raízes e mostrar para o cenário que o sul estava presente.
O tema é extremamente extenso e sempre irá nos faltar lembrar de alguma referência. Mas comida é cultura, assim como o hip-hop. Suas representações são regionais e muito fortes, falam de passado, presente e futuro.
Comida também é business, assim como o rap. É enorme a lista de artistas do gênero sócios ou afiliados a empreendimentos culinários por todos os Estados Unidos. Desde lojas de boba tea de Larry June até as wafflehouses de Nas ou franquias de frango frito de Rick Ross. A comida gera grana para artistas que rimaram tanto sobre elas durante décadas de carreira.
Comer é bom, e ouvir rap é melhor ainda. A combinação dos dois é a receita perfeita para unir duas cenas que, embora não pareça, têm mais semelhanças do que diferenças.










