Garimpando: Discos de Produtores
Caixas de disco empoeiradas, mixtapes gravadas e repassadas de mão em mão, fóruns esquecidos, downloads gratuitos e samples escondidos. Tem algo muito especial no ato de garimpar.
O Raplogia sempre gostou de apresentar trabalhos e falar sobre temas incomuns dentro do hip-hop, trazendo assuntos que muitas vezes eram até conhecidos pelo público, mas com uma abordagem especial.
Hoje iremos retomar a nossa coluna Garimpando, que tem como objetivo explorar discos, artistas, cenas e projetos que merecem evidência. É uma coluna inspirada na expressão crate digging, que é exatamente o primeiro parágrafo.
É uma troca de figurinha entre a gente e vocês. A ideia é sempre compartilhar conhecimento e o melhor, muito rap.
Em setembro de 1988, Marley Marl era o principal nome da Cold Chillin’ Records e produtor da maioria dos discos da gravadora. Ele foi considerado o primeiro “super-produtor” do rap e aperfeiçou o sampling dentro da música.
No dia 20 daquele mês e ano, Marl lançou aquele que pode ser considerado o primeiro “disco de produtor” da história do rap, In Control, Volume 1. O projeto ficou famoso por sua qualidade e também por conter “The Symphony”, considerada a primeira possecut do rap.
Mas talvez Marley Marl não imaginava o legado que seu disco de estreia traria para o rap: iniciou ali o conceito de discos de produtores, algo que se tornaria comum dentro da indústria.
Como o produtor era o rosto principal da Cold Chillin’, o disco obteve uma recepção comercial e crítica muito boa. Muitos dos artistas envolvidos no projeto, eram membros do Juice Crew, a qual Marley Marl fazia parte. Era como se In Control, Volume 1 fosse um disco feito para exaltar os talentos de toda aquela galera.
Marl virou um dos maiores - saiu direto desse disco para produzir inteiramente o projeto Mama Said Knock You Out, de LL Cool J.
O impacto é tanto, que hoje, na primeira edição do Garimpando, iremos trazer três álbuns de produtores de qualidade para você ouvir.
Pete Rock - Soul Survivor
O Soul Brother No. 1 é um dos maiores produtores da história, e isso ninguém tem dúvidas. Mas em 1998, o cenário era outro. Pete Rock havia se separado do seu fiel escudeiro, C.L. Smooth, por motivos até hoje nunca explicados com clareza e preparava um lançamento solo que elevava a expectativa dos fãs, mas, também trazia muito ceticismo.
Como rapper, Pete Rock nunca obteve o entusiasmo do público. Era um rapper decente, mas seu destaque maior sempre foram as produções. Sabendo de suas limitações claras como rimador, ele convocou um elenco repleto de lendários artistas do rap para rimarem sob seus instrumentais.
O resultado foi Soul Survivor, o primeiro disco solo do produtor, que obteve elogios da crítica e do público, que apesar de gostarem bastante do projeto, deixaram bem claras algumas ressalvas: disco extremamente inchado, com músicas desnecessárias, principalmente àquelas que tentavam usar o R&B como fonte de influência - talvez até para atingir as rádios.
Durante seus 74 minutos, é possível ouvir nomes como Method Man, Inspectah Deck, Raekwon, Ghostface Killah, Mobb Deep, Big Pun, Common, MC Eith, Capadonna, Sticky Fingaz, Large Professor e Kool G Rap. É como se Pete Rock tivesse convocado Os Vingadores do rap noventista para um projeto único.
Soul Survivor é um ótimo exercício de nostalgia e bom rap. Um grito, na época, dentro de uma costa leste vivendo uma crise existencial. Prato cheio para os fãs de boom bap nova-iorquino.
Jake One - White Van Music
Em 2008 eu era apenas um adolescente procurando por artistas de rap que eu nunca tinha ouvido em comunidades do Orkut - e de preferência, por downloads ilegais. White Van Music apareceu para mim em um fórum de downloads em M4a, formato na época, que tocava no iTunes e trazia maior fidelidade ao áudio. Baixei e fui inserido no som de Jake One, natural de Seattle.
Pouco tempo depois, Jake One lançaria um disco junto do meu Roc Boy favorito, Freeway. Mas antes disso, ele tinha uma carreira bastante longa que tinha como um dos principais momentos a produção do hit “The Time Is Now”, simplesmente a música tema de John Cena rimada por ele mesmo - sim, o cara também era rapper.
Jake One fazia parte do time da The Money Management Group, empresa independente fundada por Sha Money XL para agenciar produtores. Muitos deles acabaram fazendo parte de projetos da G-Unit, que ele também trabalhava. Em Beg for Mercy, disco de estreia do grupo, por exemplo, Jake produz uma das faixas, assim como outros membros da empresa.
Mas depois de elaborar instrumentais para 50 Cent e sua trupe, Jake One tomou um rumo menos mainstream e muito mais independente. Fechou com a icônica Rhymesyears e colocou seu primeiro disco solo nas ruas.
White Van Music tem inspiração direta no disco que citamos anteriormente nesse mesmo post, Soul Survivor, de Pete Rock
Minha maior inspiração para o álbum foi o Soul Survivor do Pete Rock. Para mim, esse ainda é o melhor álbum de produtor. Muitos álbuns de produtores parecem uma coleção de faixas descartáveis de outros projetos, e às vezes isso é inevitável. Mas não era esse o meu objetivo. Eu queria fazer algo intencional e original. [...] No geral, foi um projeto especial para mim. Ainda encontro pessoas que me dizem o quanto amam o álbum, e isso significa muito. Não me rendeu muito dinheiro, mas ajudou a construir meu nome e a estabelecer minha identidade como produtor. Esse era o objetivo, e acho que consegui alcançá-lo.
White Van Music traz inúmeros artistas incríveis e que fazem ou fizeram parte da Rhymesyears, ou são diretamente ligados a carreira de Jake. São lendas como Freeway, Brother Ali, Posdnuos, Slug, Little Brother, MF DOOM, Young Buck, Busta Rhymes, Evidence, Alchemist, Prodigy, Royce da 5’9”, M.O.P., Black Milk, Nottz, são alguns dos nomes.
The Alchemist - 1st Infantry
Hoje The Alchemist é um dos mais queridos produtores do cenário, seus projetos colaborativos com rappers param a cena a todo momento - várias vezes por ano, afinal, são pelo menos de 2 a 3 trampos anualmente.
O artista que começou fazendo dupla com Scott Caan em Beverly Hills como a dupla Whooliganz, chamou a atenção dos caras do Cypress Hill, e Alchemist acabou sendo apadrinhado pelo produtor do grupo, DJ Muggs, que ensinou as técnicas de produção musical para ele.
O resto é história. Produções para o grupo Dilated Peoples e outros artistas de Los Angeles, uma mudança para NYC fez ele produzir para o Mobb Deep pós-The Infamous e chegando até a atuar como DJ das turnês gigantescas de Eminem, algo que trouxe um certo reconhecimento para ele no cenário - e alguns hematomas.
Mas foi em 2004 que sua carreira solo começou com o excelente disco 1st Infantry, um dos projetos mais legais que vieram de um produtor em meados da década de 2000.
Quando falo de 1st Infantry, eu lembro da capa e também do single principal “Hold You Down”, com participação do seu parceiro Prodigy, Illa Ghee e as gêmeas da dupla Nina Sky. Refrão icônico, clipe dirigido por Estevan Oriol que marcou época.
Além disso, depois que esse vídeo dos bastidores da gravação do single saiu, eu me tornei mais fã ainda da faixa. Sem nenhum motivo, só porque é muito foda.
Processo criativo muito maneiro - assistir vídeos assim de Prodigy me deixam muito feliz, ele faz falta para o rap.
Mas 1st Infantry tem outros elementos tão interessantes quanto o single, mas, talvez nem tão icônicos.
The Game, Lloyd Banks, Mobb Deep, Dilated People, Stat Quo, Sheek Louch, B-Real e Nas são ALGUNS dos nomes que fazem parte do projeto. Uma mistura perfeita de Costa Leste e Oeste.
Não é a toa que o disco foi gravado entre vários estúdios de Los Angeles e Nova York.
Esse é um favorito pessoal que recomendo muito a audição. É um disco que teve recepção mista na época, mas que envelheceu muito bom, ainda mais com a obra de Alchemist sendo mais apreciada atualmente. O projeto não se define apenas com o single, que é extremamente famoso, mas é um álbum conciso com rappers muito talentosos.
Alchemist, assim como Pete Rock, rima no projeto, algo que ele faz até hoje em sua carreira.
A lista de discos de produtores é imensa, poderíamos trazer infinitas recomendações no post, mas, fiquei aqui com as minhas favoritas. Recomendo também Hi-Teknology de Hi-Tek e o projeto Extended Play, de Statik Selektah, que estariam na lista, mas eu resolvi deixá-la mais enxuta.
Graças a Marley Marl e a Cold Chillin’ Records temos a cultura dos discos de produtores até hoje. Qual o seu favorito?
O próximo #Garimpando vem aí, fiquem ligados.





