O cinema de John Singleton: a sua "hood trilogy"
Entre escolhas, perdas e sobrevivência, a “hood trilogy” mostra como John Singleton transformou o cotidiano do South Central em algo universal.
Existem histórias que só podem ser contadas por quem realmente as viveu, e, na filmografia de John Singleton, essa sensação atravessa seus filmes, especialmente nas três obras que hoje conhecemos como sua “hood trilogy”.
O diretor John Singleton iniciou sua trajetória no cinema na década de noventa, estreando com o grandioso e clássico filme Boyz n the Hood (Os Donos da Rua, 1991), escrito e dirigido por ele, baseando-se em experiências de pessoas que conheceu durante sua vida.
Formado pela University of Southern California (USC), John se baseou em Stand by Me (Conta Comigo, 1986) para escrever o projeto que até então era intitulado Summer of ‘84. Muitos elementos dessa inspiração estão na obra.
Um filme extremamente pessoal devia ser dirigido apenas por ele. Singleton foi super protetor com o roteiro, que poderia cair nas mãos de um diretor mais experiente - e talvez, branco e do outro lado do país. O filme é territorial, apenas uma pessoa preta que cresceu em Los Angeles conseguiria fazê-lo com maestria.
Stephanie Allain, mulher negra e pioneira na indústria, era vice-presidente de produção da Columbia Pictures na época, fez o pitch do filme para a empresa, que investiu na ideia e começou uma relação produtiva com John Singleton. A produtora sempre investiu em cineastas fora do comum estereótipo de Hollywood. Além de Singleton, ela ajudou no início das carreiras de Robert Rodriguez e Darnell Martin.
Singleton cresceu no infame South Central de Los Angeles, filho de pais separados, uma vendedora farmacêutica e um corretor de imóveis - elementos incorporados em seu primeiro filme.
Vivendo em uma vizinhança violenta, Singleton, assim como o personagem de Cuba Gooding Jr. em Boyz n the Hood, foi morar com seu pai durante a adolescência, possibilitando que ele ficasse fora de problemas e tivesse foco em seus estudos.
Suas experiências possibilitaram um retrato vivido e cru das quebradas de Los Angeles vistos em sua estreia, que assim como citamos anteriormente, não poderia ser feita por mais ninguém além dele.
Boyz n the Hood trouxe um elenco desconhecido para a época - e a primeira oportunidade de atuação de um dos rappers mais estourados do momento, Ice Cube. Singleton escreveu Doughboy pensando no rapper, que aceitou o convite e iniciou sua carreira nas telonas.
Com um orçamento na casa de US$6,500,000, o filme arrecadou US$57,504,069 de bilheteria - sendo dez milhões no final de semana de abertura - e batendo a arrecadação de Do the Right Thing (Faça a Coisa Certa, 1989) de Spike Lee, que foi a principal inspiração para a Columbia Pictures.
O resultado, além de financeiro, elevou a carreira de Singleton, indicado aos Oscars de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original, que acabou perdendo para Jonathan Demme, por O Silêncio dos Inocentes, e Callie Khouri, por Thelma & Louise, respectivamente.
Boyz n the Hood tem um impacto no cinema extremamente grandioso. Popularizou o subgênero conhecido como hood movies, que conta as histórias das quebradas norte-americanas quase como um neo-blaxploitation.
Sua vida foi interrompida depois de um derrame em 2019, impossibilitando o diretor de ver sua última obra, a série Snowfall, ser finalizada. Sua carreira sempre foi muito respeitada e Singleton chegou a dirigir nove filmes, além de dirigir e criar séries de televisão.
Sua obra persiste e fica cada vez mais forte. E recentemente, algo que me deixou muito feliz, foi ver que a distribuidora The Criterion Collection lançou sua “Hood Trilogy” para compra no formato de mídia física.
Os produtos da The Criterion Collection trazem filmes, coleções de cineastas, projetos raros, lançados em alta qualidade para colecionadores e para preservação das obras, deixando um legado muito maior que o comercial.
Singleton se junta a grandes cineastas a terem coleções lançadas pela Criterion. Os filmes escolhidos pela distribuidora fazem parte da sua trilogia não oficial chamada “Hood Trilogy”, que consiste nos projetos: Boyz n the Hood (1991), Poetic Justice (1993) e Baby Boy (2001), todos ambientados em Los Angeles e com premissas semelhantes, mas ao mesmo tempo, muito diferentes e aprofundadas sobre aquela região.
Hood Trilogy, a trilogia não oficial de John Singleton
O termo trilogia nunca foi usado por John Singleton de forma oficial, fazendo com que classificar os filmes dessa forma, seja algo do contexto contemporâneo que eles se encaixam.
Todos seus três filmes são ambientados na mesma região de Los Angeles, mais precisamente do South Central, todos contam histórias de famílias negras passando por dilemas e pressões e todos são produzidos de uma forma quase que documental, com a câmera sendo um elemento natural na história, nos inserindo no cotidiano.
Em contextos de produção, os filmes possuem estrutura similar: Singleton coloca atores iniciando suas carreiras como protagonistas, rappers importantes da Costa Oeste como coadjuvantes e ele “toma conta” da produção criativa dos três projetos, agindo como diretor, roteirista e muitas vezes produtor.
Em Boyz n the Hood, temos um filme extremamente pessoal, com elementos da sua vida pessoal sendo colocados como estruturas narrativas para explicar personagens. Singleton é Tre (Cuba Gooding Jr.) e Furious (Lawrence Fishburne) é o seu pai. Um homem extremamente inteligente que serve como narrador de temas que o filme aborda, como paternidade, gentrificação e violência. Ele fez isso com a naturalidade de quem viu aquilo de uma forma cíclica.





Outro personagem extremamente importante em Boyz n the Hood trata-se de Doughboy, interpretado por Ice Cube em seu primeiro papel na carreira, que em nenhum momento é retratado como vilão no filme, apesar de ter os mesmos comportamentos daqueles que são os verdadeiros. Ele é o retrato de uma criança que não teve figuras responsáveis por perto e que nunca teve esse direcionamento, sendo um produto lógico da sua criação.
A cena em que Ricky é assassinado é extremamente forte. O mais promissor é o primeiro a ser eliminado naquele ambiente hostil por ter mais a perder. Singleton deixa isso bem claro na forma que estrutura a linearidade dos fatos no filme.
Já em Poetic Justice, o diretor muda o foco do homem para a mulher negra e faz uma história de superação de luto - que muitos confundem apenas como um romance.
Estrelado por Janet Jackson e Tupac Shakur, talvez a dupla mais poderosa a estrelar filmes de Singleton, o filme foi bastante criticado na época por ser comparado ao seu antecessor, Boyz n the Hood, e ser bastante diferente.
Justice (Janet Jackson) narra o filme com seus poemas - escritos na verdade, por Maya Angelou, que aparece em uma cena - e eles fazem parte da jornada da personagem como uma armadura para uma perda. Essa viagem até Oakland pode ser encarada no filme como a superação de um luto.
Sem dúvidas uma das melhores atuações de Tupac Shakur no cinema, trazendo camadas que flutuam entre comédia, drama e romance.
Para finalizar essa trilogia não oficial, John Singleton volta para o South Central de Los Angeles em 2001 com “Baby Boy”, com Tyrese Gibson como Jody e Taraji P. Henson como Yvette, sendo esses os primeiros papéis de protagonistas de ambos os atores no cinema.
Jody foi escrito com Tupac Shakur em mente, e devido a morte do rapper em 1996, o papel foi repassado para um jovem Tyrese. Seu antagonista, Rodney, interpretado por Snoop Dogg, originalmente foi escrito com Ice Cube em mente.
Singleton revisita temas já abordados em suas outras obras, mas aqui, entra muito na psique do homem negro e a ausência de modelos. Em Boyz n the Hood, temos Furious; em Baby Boy, não temos ninguém.
O personagem de Tyrese age como bem entende, sem responsabilidade e rumo. Melvin (Ving Rhames), age como um espelho de Jody, usando a intimidação para esconder uma fragilidade gigantesca.
É um filme psicologicamente denso, Singleton se orgulhava muito do projeto. Mostra sua evolução como cineasta e como homem. A recepção foi mista, mas o filme obteve melhor reconhecimento conforme os anos foram se passando.
Aos 23 anos, John Singleton escreveu uma influente obra do cinema norte-americano, e contou a realidade dos guetos de Los Angeles de uma maneira crua jamais antes vista. Observa-se como, ano após ano, projeto após projeto, o diretor evoluiu e nunca deixou de explorar a mesma temática, através de visões diferentes.
Singleton nos deixou muito cedo, mas suas obras, principalmente esses três filmes, estarão na nossa memória eternamente.
Boyz n the Hood - Disponível para aluguel no Prime Video.
Poetic Justice - Disponível através de métodos alternativos 👀
Baby Boy - Disponível na Netflix.







